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Golpe militar: lembrar, resistir e lutar

Por Robson Sávio
O mesmo general que conspira agora, com o velhaco discurso anticorrupção (direcionado ao atual des-governo), outrora fez o mesmo, atacando a então presidenta Dilma Rousseff. A época, ao ser questionado sobre o impeachment disse: “a mera substituição da presidente da República não trará mudança significativa no ‘status quo'”. E que “a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”. Ou seja, o general tem um DNA golpista.
Como todos sabem, depois da pregação do golpe pelo general Mourão, numa loja maçônica de Brasília, o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas (um líder moderado dentro do Exército), não o desautorizou. Ao contrário, admitiu, em entrevista a Pedro Bial, a possibilidade de uma “intervenção” militar.
Segundo Villas Boas, a Constituição Federal de 1988 garante “que o Exército se destina à defesa da pátria e das instituições. Essa defesa poderá ocorrer por iniciativa de um dos poderes, ou na iminência de um caos. As Forças Armadas têm mandato para fazer”, completou.
Mas, afinal, o que é um caos? Quem define o que é caos?
Como escreveu Safatle, “ao que parece, caos seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país? Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.”
É importante destacar e lembrar que o empreendimento que resultou na ditadura militar só foi possível pela aliança visceral entre as Forças Armadas e poderosos segmentos das elites antidemocráticas e autoritárias desse país (os coronéis do latifúndio; o empresariado de mentalidade escravista; o setor financeiro corruptor; as lideranças religiosas ultraconservadoras e a mídia antidemocrática). São esses mesmos segmentos que, hoje, desejam os tanques nas ruas.
Mas, como é notório, vivemos num caos político e num regime de exceção, travestido de normalidade democrática, depois do golpe de 2016 que levou ao poder um governo de larápios, corruptos e que liquida, desavergonhadamente, o patrimônio nacional.
Ademais, há um caos institucional, dado que, também, o Congresso, totalmente desacreditado, processa profundas reformas constitucionais, sem atribuição para tal. O Judiciário, cambiante, se tornou, por ações, conivências e omissões, parte constitutiva do golpe. E a população tem reprovado, veementemente, os três poderes. Isso é ou não é um caos?
Para alguns segmentos sociais de elite, pode-se fazer impeachment sem crime de responsabilidade e, da mesma forma, uma intervenção militar é plausível e desejável. Por isso, não adianta o Xico Sá dizer que“não entendo essa nostalgia masoquista sob a máscara verde e amarela do patriotismo”. Essa máscara está sendo usada, há muito tempo, por segmentos ultraconservadores da sociedade. É óbvio.
Some-se, a isso, o fato da total capitulação dos três poderes à “nova” direita que articulou o golpe e passou a pautar a opinião pública, em parceria com a mídia-empresarial, impondo uma agenda elitista, antidemocrática e antinacional.
Como se não bastassem tantas desventuras dessa república das bananeiras, pesquisas como a do Latinobarômetro, de 2015, já demonstravam que o Brasil só perde para o México no quesito “satisfação com o funcionamento da democracia”. Ou seja, o brasileiro, em geral, tem um altíssimo desgosto com a democracia. (Apenas 21% dos brasileiros afirmaram que estão satisfeitos com a democracia). Quer algo mais excitante para os desvarios de golpistas de todas as cores e fardas?
Por outro lado, é demasiadamente arriscada a ideia de uma intervenção “saneadora” dos militares. Até mesmo respeitados analistas políticos, como Moniz Bandeira (que tem defendido essa posição, como o argumento segundo o qual “é necessário impedir o desmonte do Estados nacional [e isso] terá de ser pela força”) reconhece: “todos sabem como começa, mas não quando termina.”
O fato é que a rebelião explícita de generais “tramada nas barbas de um presidente desmoralizado” (Wadih Damous) é resultado dos custos sociais e políticos de um golpe.
Ou seja, depois que a Constituição é rasgada uma vez, nada mais segura a (i)legalidade.
Porém, não custa nada lembrar: saídas autoritárias, propostas por outsiders da política, só aprofundam o caos, a violência estrutural e sem controle e o arbítrio.
Como escreveu Safatle, aqueles que não se subjugam ao despotismo; que não estão dispostos a abrir mão do pouco de liberdade que ainda nos resta, que não aceitam salvadores da pátria no comando da nação devem exercer seu direito de resistência à todas as formas de tirania.